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Visitando Srila Acaryadeva



UN RELATO DA VISITA DE GUNESVARA PRABHU A SRILA ACHARYADEVA (PARTE I) POR GUNESVARA DAS\

Queridos Prabhus e Matajis,
Aceitem por favor minhas reverencias. Todas as glórias a Srila Prabhupada!

Na semana passada, a minha esposa Nrisimha e eu (Gunesvara das) tivemos a boa fortuna de sermos recebidos por Srila Acaryadeva na sua casa em Santa Mônica, Califórnia, e assim obtivemos a oportunidade de ouvir dele muitos assuntos relacionados à consciência de Krishna e também realizar algum serviço pessoal.

No final do primeiro dia de visita, Srila Acaryadeva me disse para eu escrever esse encontro no Site Acaryadeva.com uma vez que, ele disse, muitos devotos não conseguiam ir vê-lo. Assim, vou compartilhar esse néctar aqui.

Saímos de São Paulo no dia 15 de Julho e estávamos em Los Angeles no dia 16 ao meio-dia. Encontramos o servo de Srila Acaryadeva, Jay Gauranga Prabhu, no templo de Los Angeles. Ele costuma ir 3 vezes por semana até a casa de Srila Acaryadeva em Santa Mônica, que fica a uns 40 minutos de ônibus de Los Angeles, para realizar serviços. Jay Gauranga Prabhu ligou então ao telefone de Srila Acaryadeva perguntando se podia nos receber e bondosamente ele aceitou.

Pegamos então o ônibus 733 que nos levou pela Venice Boulevard até o ponto final dele. Nesse ponto final, numa larga avenida, na orla do oceano pacífico, descemos. Tudo era muito belo, opulento e limpo naquela área. Jay Gauranga nos disse que turistas do mundo tudo visitavam esse local. Andamos alguns quarteirões até chegar ao prédio onde Srila Acaryadeva mora num apartamento que fica no segundo andar. Jay Gauranga tocou o porteiro eletrônico e Acaryadeva respondeu, perguntando se tinha vários “ois”
(brasileiros) esperando para subir. Subimos e, após muitos anos sem tê-lo encontrado pessoalmente, vimos Srila Acaryadeva quando abriu a porta de sua casa nos convidando a entrar.

Entramos, demos reverencias e nos deu boas vindas. Nos levou a sua sala. Nela tinha muitos quadros de Krishna e Prabhupada, assim como coleções dos livros de Srila Prabhupada e outros livros também relacionados ao conhecimento védico. Convidou-me a sentar num sofá, perto da poltrona dele, e seus discípulos Nrisimha e Jay Gauranga sentaram no tapete aveludado do apartamento. Comentou que a sua mãe morava bem perto dai.

Depois de perguntar como tinha sido nossa viagem, quis saber sobre o Brasil, e comecei descrevendo o trabalho de Dhanvantari Maharaja em Nova Gokula e como estava comprando as propriedades dos seguidores de Narayana Maharaja para que estes não permanecessem na ISKCON. Acaryadeva ficou muito feliz e começou a glorificar Dhanvantari Maharaja com sincera apreciação. Foi então que disse: “Até dá vontade de ir ao Brasil”.

Começou então a lembrar dos tempos em que ele morou em Nova Gokula, quando na fazenda apenas existiam a casa azul e a casa amarela. Comentou como usava um quartinho da casa azul e outros programas aconteciam na sala dessa casa. A casa amarela tinha sido cedida para as devotas. Ele lembrou como andava junto com Guru das Prabhu, este último abrindo trilhas. Lembrou bastante, com carinho, sobre seus momentos em Nova Gokula e voltou a disser que estava muito feliz ao saber que o projeto estava se recuperando.

Então passou a falar do seu trabalho como autor de textos vaishnavas. Disse que preparou um estudo do Bhagavad Gita orientado academicamente, onde analisa as palavras sânscritas que aparecem várias vezes no texto, como Bhuta e Purusha, indicando as almas condicionadas e por outro lado Purushottama, indicando o Senhor Krishna, a alma Suprema. Falou do Capítulo 7 e do Capítulo 10, onde o Senhor Krishna descreve as suas opulências, deixando claro que Ele é a origem destas. Comentou sobre a palavra Vibhuti e deu a ampla explicação deste termo. Foi totalmente agradável ouvir a sábia interpretação de Srila Acaryadeva sobre o Bhagavad Gita.

Depois passou a falar do Srimad Bhagavatam. Comentou sobre o começo do Livro de Krishna, onde se diz que a Terra, na forma de uma vaca, foi pedir ajuda
ao Senhor Brahma porque os demônios tinham assumido a forma de Reis que oprimiam a Terra. Acaryadeva mostrou que esses demônios tinham assumido a forma humana porque não eram deste planeta. Contou a história da Batalha entre os Devas e os Asuras, depois de bater o oceano de leite, e como alguns Asuras, que não aceitaram a rendição a Vishnu, vieram a este planeta. Estes eram Vipracit e Kalanemi, os dois que não aceitaram a entrega quando Bali, o Rei dos Demonios, sim aceitou se render. Vipracit era mais “polido” ou educado, mas igualmente demônio. Kalanemi era muito impulsivo e foi por isso que Vishnu teve que mata-lo. Srila Acaryadeva comparou eles com os insurgentes. Insurgentes se escondem com suas guerrilhas nas montanhas ou florestas para preparar seu ataque depois contra a administração do local. Similarmente, Vipracit e Kalanemi se afastaram e escolheram a Terra como seu local. Vipracit tornou-se Jarasandha e Kalanemi nasceu como Kamsa. Bhumi, a Terra, sentia-se muito mal com a presença deles.

Então Acaryadeva passou a falar do Mahabharata. Primeiro ele mencionou Madhvacharya e o comentário que ele fez sobre o Mahabharata como sendo um livro “corrupto”. Isto porque Madhva provou que no Mahabharata algumas coisas que não existiam foram incluídas, outras que existiam foram retiradas e outras misturadas de forma confusa e desordenada, trocando de local. Por isso, disse Acaryadeva, estava escrevendo o romance dos Pandavas apresentado de uma forma atrativa e diferente.

Ele deu o exemplo do Brahmana Dronacarya e sua disputa com o Rei Draupada. A história conta que Drona não tinha dinheiro nem para comprar leite para o seu filho Ashwattama. Ora, conta Acaryadeva, Drona estava casado com Kripi, filha dos Kurus. Kripi era a mãe de Ashwatama. Sendo os Kurus a família mais importante e opulenta da época, como era possível que um neto dos Kurus não obtivesse nem sequer um copo de leite? Por outro lado, Drona era um brahmana e na época todo mundo dava leite como caridade, porque todo mundo tinha vacas. Porque um Brahmana importante como Drona não conseguiria leite para seu filho? Acaryadeva disse que a prova de que Drona tinha uma posição importante é que no momento em que apareceu no palácio dos Kurus se lhe foi dada, imediatamente, uma posição de liderança, como mestre instrutor do conhecimento militar.

Acaryadeva comentou que o Mahabharata foi escrito por Brahmanas e por isso mostraram o Rei como sendo mau e insensível e o Brahmana Drona como a vítima.

Depois deu o exemplo de Shikandi, que na vida passada era Amba. Muitas narrações do Mahabharata mostram Shikandi como sendo afeminado, como se a moça Amba estivesse ainda presente no corpo de Shikandi. Mas segundo o Bhagavad Gita, o último estado de consciência que se tem na hora da morte é o estado que se alcança. Começou então a contar sobre Amba. Era uma princesa que tinha tudo o que se pode desejar na vida. Não lhe faltava nada. Tinha beleza, reputação, riqueza, conhecimento e tantas virtudes. Mas acabou sendo totalmente rejeitada, como se fosse “intocável.”

A história conta que Bhismadeva levou Amba e suas duas irmãs para que fossem esposas de Vicitravirya, filhos de Satyavati. Mas Amba comentou que já estava apaixonada por outro Rei e pensavam casar-se. Bhisma então enviou ela para o outro Rei mas ele não a aceitou porque não queria remanentes de Bhisma e a enviou novamente. Segundo Srila Acaryadeva, o erro dos Kurus foi não permitir depois disso que Amba se casa-se com Vicitravirya porque foi considerada também rejeitada por Shalva (acho que era esse o nome do outro Rei). E assim ela foi totalmente rejeitada por todos.

Então foi a um ashram praticar austeridades. Nesse Ashram morava o seu avô, que era um dos sannyasis. Ao ver sua neta, a trouxe ao seu colo e escutou a narração do que tinha acontecido com ela. Enquanto Amba contava o acontecido, não apenas seu avô mas também outros sábios e sannyasis que estavam ai no ashram ouvindo, começaram a chorar de compaixão.

Depois, Amba fez austeridades tão rígidas que os homens do ashram tinham respeito e até temor. Seu único objetivo era matar Bhisma. No momento de sua morte, as últimas palavras da poderosa Amba, pronunciadas com grande força e ira foram: “MORTE A BHISMA!!!.” Como poderia uma pessoa tão poderosa nascer como um afeminado sem caráter? Esse é o ponto apresentado por Srila Acaryadeva.

Assim, depois de falar do Bhagavad Gita, do Srimad Bhagavatam e do Mahabharata, Srila Acaryadeva começou a descrever a importância do Santo Nome, da Japa especificamente. No Kirtana, ele disse, os devotos podem não estar concentrados em Krishna porque estão se observando, dançando, tocando instrumentos musicais e assim interagindo entre eles. Mas na Japa é onde se vê como estamos nos relacionando com Krishna. Na Japa é somente Krishna e cada um de nós.

Depois de nos iluminar com esses assuntos, estava se aproximando a hora do Gayatri. Tinham passado umas 3 horas, nas quais Acaryadeva falou de Krishna sem parar. Nos convidou então para ir até o oceano cantar o Gayatri. No pacífico se pode ver o pôr do Sol. Ele vestiu um casaco e saímos. Estava frio, embora fosse verão nos Estados Unidos. Acaryadeva disse que o clima era sempre assim nesse local, algo quente de dia, mas com algum vento, e esfriando um pouco à noite. Para chegar à orla do oceano precisávamos atravessar uma larga avenida, onde vários carros vinham de ambos os lados. Demonstrando a cultura e educação do povo americano, TODOS os carros de ambos os lados pararam logo que nos colocamos apenas um pé na faixa dos pedestres ao descer da calçada para começar a atravessar a avenida. Eu tinha falado para Acaryadeva que Jay Gauranga já tinha mencionado sobre essa atitude dos motoristas, ao que Acaryadeva disse brincando: “Sim, ele tem medo de que Jay Gauranga mostra uma arma.”

Então cantamos o Gayatri olhando o Sol se pôr. Ao acabar o Gayatri Acaryadeva viu que Nrisimha estava tremendo um pouco e perguntou se estava com frio. Ele afirmou, e então ao voltar ao apartamento dele ele deu um casaco de presente. Nrisimha tinha dado uma doação antes de sair para cantar o Gayatri, então Acaryadeva disse: “Não se preocupe, você já pagou pelo casaco.”

Esse foi o primeiro dia. Então ele disse: “Vocês vieram de longe para me ver. Vamos combinar para voltarem amanhã.” Ele disse que no dia seguinte iria ao dentista, mas que depois podia nos receber. Já eram 20h30min. Demos reverencias e nos retiramos. Amanhã conto como foi no dia seguinte.

Vosso servo,
Gunesvara das
31 de julho de 2013

*

VISITANDO SRILA ACARYADEVA – PARTE II
Queridos Prabhus e Matajis,
Aceitem por favor minhas reverencias. Todas as glórias a Srila Prabhupada!

Eu disse que iria escrever a segunda parte de nossa visita a Srila Acaryadeva há duas semanas mas não consegui fazê-lo. Desculpem. Estou escrevendo agora.

Como tinha comentado na narração anterior, Srila Acaryadeva disse no nosso primeiro dia de visita que uma vez que tínhamos vindo de tão longe para lhe ver, podíamos ir ao dia seguinte. Então, no segundo dia, estando no templo de Los Angeles, perguntei a Jay Gauranga prabhu como seria esse dia de visita. Ele ligou ao telefone fixo de Acaryadeva mas não respondia. Srila Acaryadeva tinha dito no dia anterior que estaria indo ao dentista no dia seguinte. Jay Gauranga achou que por isso não estaria em casa. Ele não quis ligar ao celular porque tal vez Acaryadeva não poderia atender pelo tratamento dental. Então ele ligou mais tarde. Ao ligar, Acaryadeva disse que podíamos ir, mas que como ele precisava trabalhar no seu computador, seria ideal que depois de chegar na casa dele e ter sua santa associação por alguns momentos, saíssemos para cantar na orla do mar pacífico enquanto ele trabalhava em casa.

Então fomos para a casa dele, saindo do templo por volta das 11 horas da manhã. Eu tinha levado uns queijos do Brasil para dar a Srila Acaryadeva para o dia de ekadasi. Sabia que em Ekadasi ele comia queijo e ekadasi seria no dia seguinte. Tinha levado do Brasil provolone Boa Nata, uns dos únicos provolones que, como vocês poderão ler na lista de ingredientes, é feito com coagulante microbiológico. Também tinha levado parmesão da mesma marca. Ao entrar no apartamento dele eu tinha os queijos na mão dentro de um saco plástico. Ele viu e disse: “O que você trouxe?”. Então falei dos queijos e ele imediatamente entrou na cozinha, abriu o pacote e pegando uma faca tirou uma fatia do provolone e comeu. Pela sua expressão dos olhos e o movimento da cabeça entendi que tinha aprovado e gostado. Eu já tinha ouvido falar que ele gosta de sabores defumados, e por isso fiz questão de levar provolone. Alguns devotos Brasileiros que foram morar em USA no passado comentavam que os queijos daquele país não eram tão gostosos. Até eles comentavam que tinham “gosto de plástico”.

Perguntei então se podia ajudar fazendo alguma coisa. Estávamos na pequena cozinha do apartamento quando perguntei isso. Ele disse então: “Você quer fazer uma macarronada para a gente?”. Fiquei feliz de poder cozinhar novamente para Srila Acaryadeva. Sabia que ele tinha mudado os hábitos alimentares. E de fato, no armário da cozinha dele tinha ingredientes bem naturais e integrais, como arroz preto, arroz integral, dhal de moong germinado seco e outros produtos bem saudáveis. Aqui no Brasil, uns meses antes, conversando com Dhanvantari Maharaja depois que ele o visitou, tinha comentado comigo que agora eu não saberia como cozinhar para Acaryadeva. Por isso nem me ofereci a cozinhar, embora eu tivesse sido cozinheiro dele em outros países em algumas ocasiões. Mas quando ele pediu para fazer “macarronada” me senti bem feliz. Isso eu sabia fazer!

Então, e para deixar ele trabalhando, saímos todos do apartamento. Fomos comprar os ingredientes. Novamente, estávamos apreciando as ruas, casas, carros e cultura nesse bairro tão refinado. Srila Acaryadeva depois comentou que perto da rua dele, nesse mesmo bairro, haviam casas que custavam mais de 4 milhões de dólares. Andamos alguns quarteirões até chegar no wholemarket ou mercado de produtos orgânicos e integrais. Era um grande supermercado bem grande com produtos de vários lugares do mundo e a maioria orgânicos, incluindo grãos, frutas, sucos, cereais, arroz de diversos tipos, molhos, geleias e outras “tentações”. E o interessante é que o preço era bem acessível. Ficamos comprando o que achávamos seria bom para o almoço, como alcachofras, verduras, sucos (Acaryadeva pede que não sejam concentrados) brócolis, pimentões e outras coisas. Na hora de comprar o macarrão eu fiquei em dúvida. Acaryadeva tinha mostrado na casa dele que tinha um pouco de espaguete, mas eu vi que era pouco (ainda mais se eu fosse comer também). Então decidi comprar outro pacote. Só que fiquei em dúvida se devia ser espaguete ou outro tipo. Acabei comprando penne, um macarrão mais curto.
Perguntei ao Jay Gauranga também e concordou. Porém, depois fiquei sabendo que Acaryadeva preferia espaguete. Ele disse que na infância já escolhia o espaguete ao invés desses outros. (Ainda bem que tinha espaguete no armário dele).

Meu cartão de crédito já tinha sido “liberado” pelo banco aqui no Brasil para compras no exterior. Assim que não tive problemas. Voltando ao apartamento comecei a cozinhar. Acaryadeva saiu para ver a sua mãe. Disse que voltaria em 30 minutos. Perguntou quanto demoraria o almoço para estar pronto, ao que falei “30 minutos”. Quando voltou estava “quase pronto”. Faltava oferecer. Colocamos todo na mesa e ele comeu a vontade. Eu tinha colocado ambos os queijos (Parmesão e Provolone). Ele disse que não gostava de queijo parmesão. Foi comendo o macarrão com o provolone. Enquanto comia ele perguntava pelos devotos do Brasil. Perguntou pelos sannyasis, pelos projetos, por devotos que tinham morado ou visitado ele no passado em USA, como Mãe Sri Rupa (ele disse que ela era uma devota sincera), Prabhu Hadai Pandit, Prabhu Sri Rama e outros. Falou também do bom que era que mataji Indra Puja estivesse ajudando a organizar o programa da reunião de devotos na casa de Ipiranga. Comentou também que tinha ajudado financeiramente a Guru das a comprar umas terras no Brasil, mas que agora (e ele disse: “como sempre acontece”) Guru das queria voltar para Nova Gokula. Quando ele comentou isso, eu lembrei como Srila Acaryadeva ajuda com dinheiro tantos devotos, tantos grihasthas e matajis. Alguns anos atrás, ele tinha gastado grande quantidade de dinheiro para reformar o templo de Atlanta. E recentemente, ele emprestou 180 mil reais para “Salvar” o templo de Nova Gokula. Dhanvantari Maharaja me disse que o Juiz de São Paulo, devido a uma dívida não resolvida do templo de São Paulo desde a época do Jagannatha das (Argentino), já tinha emitido a ordem autorizando que o templo de Sri Sri Radha Gokulananda e a área do Samadhi e lojas próximas, fossem todos “a leilão”. Segundo Dhanvantari Maharaja, a ordem do Juiz não tinha ainda chegado ao Forum de Pindamonhangaba. Se tivesse chegado, seria tarde demais. Então Dhanvantari Maharaja pediu ajuda a Srila Acaryadeva quem emprestou esses 180 mil reais.

Neste ano, encontrei várias devotas que recebem ajuda financeira para estudos ou alguma outra coisa de parte de Srila Acaryadeva. Imaginem que num momento em que minha esposa disse a ele que queria conhecer alguns lugares turísticos de Los Angeles ele comentou sobre Universal Studios. Ela disse que não poderia ir a esse local porque era muito caro. Então Acaryadeva disse: “Não, eu dou o dinheiro para você!”. Claro que Nrisimha não aceitou. Mas ele é assim, come muito simples, não gosta que sobre nada, que se gaste dinheiro a toa, mas está sempre pronto para ajudar com dinheiro aos devotos e aos projetos de ISKCON. Nesse momento desejei ter muito dinheiro para dar a ele.

Depois de tomar prasadam e falar dos devotos e projetos, ele foi se sentar na sua poltrona na sala. Nada errado com a prasadam, exceto que ele disse que “comi demais”. Disse que comeria novamente só após um par de dias.

Sentamos na sala e comentei que seria ekadasi no dia seguinte. Ele perguntou a Jay Gauranga se tinha algo para comer em ekadasi. Jay Gauranga disse que não. Acaryadeva pediu para ele trazer cedo algo no dia seguinte. Então pediu para mi fazer umas batatas crocantes ao forno para o ekadasi. Como Jay Gauranga tinha que ir embora para cozinhar para as Deidades e no dia seguinte ele entrava no altar, o que complicaria ir cedo à casa de Srila Acaryadeva, me ofereci a ficar com Nrisimha, comprar as batatas e deixar elas prontas. Ele concordou.

Começou então a falar das “papas” (batatas) e o tema foi para a instituição cristã (o Papa) Num momento em que Nrisimha disse que Nostradamus profetizou que o atual Papa seria o último Papa, ele disse que não imaginava como o cristianismo, uma instituição tão forte, poderia acabar. Também disse que não existia nenhum plano de abolir da Igreja o sistema de Papa.

Então Jay Gauranga teve que sair. Quando já estava na rua indo ao templo, Srila Acaryadeva assomou-se na sacada do prédio, desde o segundo andar, e perguntou se ele tinha explicado à gente sobre como voltar ao templo sozinhos. Jay Gauranga disse que sim, e Acaryadeva perguntou mais umas vezes: “certeza? Você explicou bem?”. Mais uma vez ele mostrou a sua preocupação com os devotos.

Ele viu a cozinha que ainda estava bagunçada e suja. Perguntou se nós íamos arrumar, ao que falei que sim, que eu estaria saindo nesse momento a comprar as batatas e Nrisimha ficaria arrumando. Concordou.

Então eu sai. Uma vez que eu não sei o que Acaryadeva fez enquanto eu estava na rua, pedi a minha esposa narrar. Assim que o que vão ler agora é o que minha esposa escreveu.

“Prabhu Gunesvara saiu para comprar as batatas de ekadasi, Jay Gauranga tinha que ir ao templo fazer seu serviço e eu fiquei limpando a cozinha depois do almoço. Tirei o que estava na mesa, lavei os pratos e panelas, limpei o fogão e deixei tudo organizado. Srila Acaryadeva, quando acabou de comer, foi para o seu quarto. Quando terminei tudo aproveitei para ver os livros que estavam na estante. Me chamou a atenção o livro sobre a biografia de Hladini Mataji. Depois me sentei e fui cantar minha japa. Então entrou Srila Acaryadeva bem animado e disse que próximo àquela rua havia belas casas e ruas bonitas também, que eu deveria aproveitar para conhecer. Comentei que realmente estava pensando ir no dia seguinte conhecer a cidade através de um ônibus de turismo e ir a Hollywood. Então ele disse que esse mesmo ônibus passava por ali, que era um dos pontos turísticos. Resolvi então convidar Srila Acaryadeva ir também. Ai ele disse, “Está bom, um pai passeando com sua filha. Só vou me vestir.”

Depois ele voltou bem agasalhado e perguntou brincando “Como será que as pessoas vão reagir em ver uma leoa andando normalmente pelas ruas?”. Ele calçou seus tênis e fomos. Andamos pelos caminhos por onde Srila Prabhupada tinha caminhado pela orla da praia. Paramos num lugar onde ele mostrou algumas mansões e disse que o presidente Kennedy tinha fotos em alguma dessas casas. Acaryadeva comentou que anda diariamente 10 quilômetros. Ele andava bem rápido e eu tinha que me esforçar bastante para seguir os passos. Me mostrava as lindas casas com lindos jardins de vários estilos, todas sem muros, grades ou cercas. Me mostrou a beleza da árvore Magnólia. Era tudo muito bonito e arvorizado. Depois voltamos”

(Agora sou eu, Gunesvara narrando).

Voltei após comprar as batatas orgânicas. Srila Acaryadeva tinha dado uma chave do apartamento para eu entrar, só que, ao entrar no elevador, eu não lembrava qual era o número ou andar do apartamento. Jay Gauranga me disse que era no segundo andar, pelo que apertei o botão do número dois no elevador. Sai do elevador e lembrando que a porta do apartamento de Acaryadeva era a primeira porta ao lado direito, fui diretamente para ela para colocar a chave e entrar. Porém, vi que a porta estava aberta levemente. Abri ela toda e para minha surpresa vi vários sapatos de crianças, crianças brincando e o pai delas olhando para mim também surpreendido. Obviamente eu tinha errado de apartamento!! Com meu “melhor Inglês tentei explicar. O pai disse” Wrong apartment” e simplesmente fechou a porta. Quando depois contei a Srila Acaryadeca ele riu e disse: “Eu sabia que você tinha algo de malandro!”.

Nrisimha tinha comentado que no dia seguinte queria ir a Hollywood, mas que eu não estava muito “animado”. Ele disse que eu era tranquilo, que aquilo não era para mim. Então, logo que voltou depois de andar com Nrisimha, ele disse: “Gunesvara, você que está morrendo de vontade de ir para Hollywood, vem que vou te explicar como chegar.”

Fomos no quarto dele e abriu o seu laptop. Então, fez todo o caminho do templo até Hollywood. Embora ir a Hollywwod fosse algo mundano, ele explicava esmeradamente como chegar, que ônibus pegar, de que lado da avenida, onde descer e pegar outro, qual era o número desse outro, tudo bem explicado. Novamente, mostrando sua atitude de dedicação aos devotos. Ele fez uma plano de como chegar, que ainda está com Nrisimha.

Então ele convidou a escutar enquanto tocava o piano. No dia anterior também tinha tocado melodias muito harmoniosas e bonitas. Eu não comentei nada, mas admito que algumas vezes preciso ouvir música clássica como terapia. Mas Acaryadeva não tocou música clássica. Ele tocou melodias devocionais harmoniosas que estava criando para o prazer de Srila Prabhupada. Algumas tenho ainda porque gravei.

Depois sentamos de novo na sala. Jay Gauranga desta vez não estava. Perguntamos se ele achava bem que levássemos nossa filha Narahari por algum tempo a Mayapura para estudar. Ele disse que sim, para “salvar ela” que está agora na pré-adolescência. Mas disse que devíamos ter um plano para ser executado na Índia, mesmo nesses anos que estivéssemos por lá acompanhando a educação da filha caçula.

Ele disse que esperava que os devotos não ficassem nos finais de suas vidas simplesmente retirados em Vrindavana. Ele comentou que os devotos deveriam tomar força e novamente ser ativos e entusiastas para as atividades devocionais como éramos antes, e assim, partir deste mundo com glória. Falou assim sobre essa terceira fase, depois da vida familiar. Então ele olhou para mim e perguntou: “Quantos anos você tem?.”

Finalmente, ele comentou do seu desejo de visitar o Brasil. Mas também comentou que os devotos deveriam mostrar interesse. Disse que no passado, especialmente durante os festivais, ele veio dar uma aula e não tinha quase ninguém presente. Os devotos estavam por perto, na área, mas esperaram a que ele acabasse de cantar “Jay Radha Madhava” para entrar no templo. Se ele for vir ao Brasil terá que ser para ensinar, como mestre espiritual que ele é. Mas se os devotos não tiverem interesse em ouvir atentamente, em ter a atitude correta, para que ele viria?

Por isso, o ideal seria vir numa época que não estiver acontecendo algum festival. Ele comentou que no passado os devotos nem compravam as fitas cassetes das aulas dele. Esse desinteresse por parte dos devotos não lhe agradou. Mas ele gosta muito do Brasil. Ele disse que numa época, ele tinha concluído que o Brasil era o lugar para ele ficar como local principal.

Então ele ficou pensando e comentando onde ficaria se viesse ao Brasil. Várias opções e locais surgiram, mas como sempre, parecia que Nova Gokula era o principal, sempre e quando não fosse em época de festival nem quando outros sannyasis ou gurus estivessem aqui também. Para mim isso fazia sentido. Se ele for vir ao Brasil para estar com os devotos, os devotos teriam que mostrar o mesmo interesse.

Finalmente nos despedimos, agradecemos e partimos. Já perto do elevador eu disse: “Até a próxima visita Srila Acaryadeva”, ao que ele respondeu: “Até a próxima macarronada.”

Agora, (eu Gunesvara das fazendo alguns comentários), acredito que seja a nossa atitude, o nosso anseio por ouvir o que ele tem a ensinar, a nossa atitude de respeito e reverência, como se espera do ouvinte, o que vai favorecer futuras visitas de Acaryadeva ao Brasil. Como dizem os místicos, “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.”

Ele comentou que muitos discípulos gastam dinheiro fazendo viagens, mas não vão visitar seu Guru. Então eu pensei: se os discípulos não têm interesse em se aproximar do guru, porque o Guru viria? Segundo o Senhor Krishna, é o discípulo quem tem que se aproximar do mestre espiritual e não o oposto. Antes era mais difícil conseguir visto americano, mas hoje está bem mais fácil. Acredito eu que na medida em que mais discípulos e seguidores visitem Srila Acaryadeva, mais inspirado ele se sentirá em vir ao Brasil. E uma vez aqui no Brasil, na medida que mostramos avidez por ouvir o que ele tem a ensinar, respeito e serviço, ele ficará satisfeito e ficará por mais tempo. Apenas minha opinião.

Vosso servo,
Gunesvara das